Abril 2008


Impulso nervoso.
A cabeça lateja, a vista cega enxerga em excesso.
Um fino zumbido ensurdece as palavras alheias, o cérebro registra sensações que não foram sentidas, a logica vira do avesso, estou agora no comando da situação, e voce, menor que eu por seus crimes vis me pisa como um inseto. Tudo se encaixa, como a agua se mistura ao oleo, no seu brilho impermeavel, afoga a razão. A respiração aumenta, a garganta rasga pelo grito calado. Um barulho oco, como murros repetidos na boca do estomago, uma extrema necessidade de possuir e ser possuido. O outro, objeto de ira, de dor, de magoa, reflexo da sua carencia, sombra da sua insegurança. Você se sente implodir, cada musculo seu sente a pressão.
10,
9,
8,
7
você segura a cabeça em desespero, escuta o ‘tic tac’ do seu controle.
Sente cada nervo, como um raio percorrendo seu corpo.

Corpo celular, axônio. Corpo celular, axônio.

Agora, se tornou fisiológico. Sabe que em alguns instantes tudo vai ser sugado , a realidade vai se tornar inexistente, paralela. Tenta se controlar, tentar nao se concentrar nesses feixes nervosos. Começa a doer, todo corpo se contrai em um desespero por controle.

controle.
controle.
o ritmo das batidas intensificam, a dor agora, mais fina, grita, tudo gira.
6,
5,
4,
3
procura onde se esconder, onde encontrar conforto. O que era vazio agora se enche de um fluido gelatinoso, umido, turvo logo acima do estômago. O gosto amargo na boca denuncia a impossibilidade de fugir de si mesmo.
2,
1.

1.
Sinapse.

agora é impossível controlar, seus músculos ganham peso de mil toneladas, força de guindaste e ultrapassa a trava interna.
Tudo em volta silencia. Tudo para, tudo se cala.
A consciência adormece.
Tudo passa em câmera lenta, um grito sai da boca, intenso, você sente seus músculos faciais contraindo, seu maxilar abrindo, suas cordas vocais vibrando. Mas o silencio domina, da sua garganta o grito sai rasgando tudo, mas você não é capaz de escuta-lo. Suas mãos se movem, você sente cada veia, cada articulação, cada músculo.
Sinapse.
Reflexo.
Explosão.

Você vê nitidamente os murros repetidos direcionado a parede, mas nao escuta o barulho dos seus ossos em atrito com a parede, nem sente a dor latejante da pele esfacelada. Todo momento dura 10 segundos. Uma eternidade. Então td acaba.

Você respira forte e rápido, a falta de ar te domina. Aos poucos as cores em volta reaparecem, você agora escuta a pesada pulsação, e sente a forte dor latejante. Todos seus músculos relaxam, se sente violentada. consegue perceber que foram suas maos que agrediram a parede, + sente como se todo seu corpo tivesse sido jogado em intensas convulsões contra parede. Um forte estalo em sua mente a tira da inercia, e vc chora. Compulsivamente. Pelo descontrole, pela crise, pela fraqueza, pela carência e pela dor. Se sente uma marionete, comandada pelos seus impulsos nervosas, seus desejos, e suas necessidades nao realizadas. Chora de medo do medo, da confusao mental causada por esses momentos em que percebemos que somos apenas humanos, mesquinhos e hipócritas. E a culpa a invade com a potência de uma arma nuclear, destruindo todo pouco que sobrou.

Sou inerente a minha intensidade, a multiplicidade de meus retalhos. Porem, perdi a minha capacidade de discernir o que é meu ou seu no momento em que te deixei me torna apenas a subtração dos fatores isolados existentes em sua historia de vida. Sendo apenas o conjunto das atitudes que me diferem como pessoa dos seus outros personagens principais e falhos. Sendo assim sou o que os outros não puderam ser, tenho por ti o carinho e o respeito que arduamente te foi negado no decorrer de sua estrada, e sou exatamente aquilo tudo que você gostaria que eles fossem, mas não são. E alem de carregar o imenso fardo de não ser alguem, e sim a reunião do seu imaginário alheio, a intersecção da sua imaginação com a realidade, tenho que carregar o peso de ser também tudo aquilo que você considera perfeito. Os outros erram, amam, exigem, são humanos as vezes racionais, as vezes irracionais. Eu não falho, eu nao amo, eu não movo um unico músculo que não tenha sido previamente mensurado, pesado e avaliado pois não tenho a liberdade de ser impulsiva e intensa. Pois sendo eu assim, a união das somas dos quadrados das suas ilusões anteriores, imune ao erro, sendo você assim toda deposito de erros alheios e todo cansaço, já não tem paciência para as minhas qualidades(ou defeitos) humanas.
Me olho no espelho tentando ver o que você ve. Essa minha imagem retalhada que te completa, me faz vazia. Quero ter o privilégio que eles tem, quero ser amada por existir e apenas, e quero ver também meu erros justificados e perdoados por você como tantos outros foram. Eles que te mitigam, que te corrompem, te divide em pedaços vazios, sempre tem sua misericórdia incondicional que você deliberadamente distribui e diz ‘coitados, são tão imperfeitos’. De que vale essa perfeição, se cada vez que eu coloco meu corpo exatamente onde você gostaria que ele estivesse, você se torna ainda mais exigente e quer mais e mais.
E sei eu da dor que é continuar a te dar cada pedaço de mim, me transformando naquilo que você quer que eu seja, para só depois descobrir que me transformastes numa grande montagem usando as peças que não soubesses encaixar naqueles que voce tanto ama.
E mesmo assim, voce olha pra mim e não ve o que quer, sente falta dos defeitos que você deixou de fora na minha criação. Sinto muito, minha querida Mary Shelley, se tua criação perfeita pecou pela falta de imperfeição, mas apesar de você não conseguir ver em mim , eu vejo. Sim, eu vejo cada pedaço quando estou naquela moldura, pendurada naquela parede no canto do teu quarto, do meu quarto. Sou inerente a mim, e ainda me vejo. Os meus verdadeiros retalhos, que aos poucos dividirão com uma fina linha eu, aqui embaixo, com meus pés fincados no chão, de você voando, flutuando lá em cima, se recusando a me olhar.

Continuo seguindo em frente insustentando esse falso rubor ao rir, essa falsa segurança. Como um olhar cego de olhar insistentemente a luz do sol durante a queda. Gargalho alto, pego um copo, falo palavras vazias, gargalho mais alto ainda, num tolo desespero de superar meu grito silencioso. Um momento de silencio e a angustia tenta subir pela cadeira até meu colo. Me mexo, mexo os pés, tento impedir que ela alcance seu objetivo. Desvio os olhos para um rosto distante e conseqüentemente vejo em olhos estranhos abismos de minha alma, e me jogo. Fingindo ser suficiente esses falsos rastros, essas pequenas atenções semi direcionadas, esses olhares implícitos, cada vez mais rápido, até tropeçar e cai em mim mesma. Na minha embriagues de auto-enganação, acordo e sou figurante, acordo e sou pedestre, acordo e o mundo cabe em mim, e o dia passa com uma sombria contagem regressiva, e quando durmo não sou mais que o epitáfio de mim mesma, retalhada, cansada de papeis e sentimentos induzidos.

Naquela noite a realidade parecia embriagada. A escuridão repousava na alça da minha blusa, encobrindo minha áurea, obscurecendo minha visão. Meu espírito boêmio e aventureiro gritava:

’se arrisque, se entregue’,

Abri minhas asas repleta de confusão e loucura, e sobrevoei aquela doce presença, indagando misterios, enfeitando historias de amor idealizadas e inexistentes. Me permitindo ser outra, ser alem e cometendo o crime de abrir espaço de minha alma para uma doce estranha que apenas existia em minha mente.
Forjei olhares de cumplicidade, enquanto serrava meus olhos ao toque leve da brisa no meu rosto. Me senti viva. Cada parte do meu corpo se justificava, cada movimento tinha um objetivo semi-direcionado. Cada respirar construía em mim: cartas, musicas, palavras, aniversários.

Me deixei apenas ser levada para o que depois viria a ser o meu precipício: a doce ilusão de enxergar o intenso esforço de uma alma para pertencer a algum lugar.
Assim como eu, ela residia em si mesma procurando no ar, ou na noite, uma justificativa para está ali, e sorrir. Assim como eu , seu espírito nitidamente se intensificava, se remexia silenciosamente na cadeira azul daquele bar no meio do nada, na fumaça liberada de um trago, carregada do calor de seus pulmões.
Levemente me entreguei a esse doce barulho de seu sorriso, ao tom rouco de sua voz, a leveza das palavras gentis. E fantasiei.

Segurei aquele momento como se apenas ele fosse real e justificável, e me sentir livre como uma alma aprisionada. Achando em ruas vazias, em pontes, em beiras de rio amores possíveis e seguros. Fantasias minha que jamais serão roubadas, ou mitigadas, e assim terminei a noite transformando figurante em personagem principal.

E , solitariamente , apenas a olhei, e meu ser se encheu de força. Ali, naquele corpo, repousava uma alma que não sabia a importância de sua onipresença, e como em sua simples condição de existência era capaz de juntar os retalhos de outra alma. Ela sorriu inocentemente, e seu sorriso iluminou refletindo na agua que corria ponte abaixo. Era suficiente. Sempre seria. E bastava um momento a mais que aquele para que toda aquela fantasia se tornasse apenas mais um relacionamento inter-pessoal e egocêntrico. Assim, com um ultimo olhar panorâmico ao redor, parti. Ainda inebriada com cada cheiro daquele momento, com a beleza e a simplicidade da conquista silenciosa, e com o valor de cada pequeno movimento.