Naquela noite a realidade parecia embriagada. A escuridão repousava na alça da minha blusa, encobrindo minha áurea, obscurecendo minha visão. Meu espírito boêmio e aventureiro gritava:

’se arrisque, se entregue’,

Abri minhas asas repleta de confusão e loucura, e sobrevoei aquela doce presença, indagando misterios, enfeitando historias de amor idealizadas e inexistentes. Me permitindo ser outra, ser alem e cometendo o crime de abrir espaço de minha alma para uma doce estranha que apenas existia em minha mente.
Forjei olhares de cumplicidade, enquanto serrava meus olhos ao toque leve da brisa no meu rosto. Me senti viva. Cada parte do meu corpo se justificava, cada movimento tinha um objetivo semi-direcionado. Cada respirar construía em mim: cartas, musicas, palavras, aniversários.

Me deixei apenas ser levada para o que depois viria a ser o meu precipício: a doce ilusão de enxergar o intenso esforço de uma alma para pertencer a algum lugar.
Assim como eu, ela residia em si mesma procurando no ar, ou na noite, uma justificativa para está ali, e sorrir. Assim como eu , seu espírito nitidamente se intensificava, se remexia silenciosamente na cadeira azul daquele bar no meio do nada, na fumaça liberada de um trago, carregada do calor de seus pulmões.
Levemente me entreguei a esse doce barulho de seu sorriso, ao tom rouco de sua voz, a leveza das palavras gentis. E fantasiei.

Segurei aquele momento como se apenas ele fosse real e justificável, e me sentir livre como uma alma aprisionada. Achando em ruas vazias, em pontes, em beiras de rio amores possíveis e seguros. Fantasias minha que jamais serão roubadas, ou mitigadas, e assim terminei a noite transformando figurante em personagem principal.

E , solitariamente , apenas a olhei, e meu ser se encheu de força. Ali, naquele corpo, repousava uma alma que não sabia a importância de sua onipresença, e como em sua simples condição de existência era capaz de juntar os retalhos de outra alma. Ela sorriu inocentemente, e seu sorriso iluminou refletindo na agua que corria ponte abaixo. Era suficiente. Sempre seria. E bastava um momento a mais que aquele para que toda aquela fantasia se tornasse apenas mais um relacionamento inter-pessoal e egocêntrico. Assim, com um ultimo olhar panorâmico ao redor, parti. Ainda inebriada com cada cheiro daquele momento, com a beleza e a simplicidade da conquista silenciosa, e com o valor de cada pequeno movimento.