Sou inerente a minha intensidade, a multiplicidade de meus retalhos. Porem, perdi a minha capacidade de discernir o que é meu ou seu no momento em que te deixei me torna apenas a subtração dos fatores isolados existentes em sua historia de vida. Sendo apenas o conjunto das atitudes que me diferem como pessoa dos seus outros personagens principais e falhos. Sendo assim sou o que os outros não puderam ser, tenho por ti o carinho e o respeito que arduamente te foi negado no decorrer de sua estrada, e sou exatamente aquilo tudo que você gostaria que eles fossem, mas não são. E alem de carregar o imenso fardo de não ser alguem, e sim a reunião do seu imaginário alheio, a intersecção da sua imaginação com a realidade, tenho que carregar o peso de ser também tudo aquilo que você considera perfeito. Os outros erram, amam, exigem, são humanos as vezes racionais, as vezes irracionais. Eu não falho, eu nao amo, eu não movo um unico músculo que não tenha sido previamente mensurado, pesado e avaliado pois não tenho a liberdade de ser impulsiva e intensa. Pois sendo eu assim, a união das somas dos quadrados das suas ilusões anteriores, imune ao erro, sendo você assim toda deposito de erros alheios e todo cansaço, já não tem paciência para as minhas qualidades(ou defeitos) humanas.
Me olho no espelho tentando ver o que você ve. Essa minha imagem retalhada que te completa, me faz vazia. Quero ter o privilégio que eles tem, quero ser amada por existir e apenas, e quero ver também meu erros justificados e perdoados por você como tantos outros foram. Eles que te mitigam, que te corrompem, te divide em pedaços vazios, sempre tem sua misericórdia incondicional que você deliberadamente distribui e diz ‘coitados, são tão imperfeitos’. De que vale essa perfeição, se cada vez que eu coloco meu corpo exatamente onde você gostaria que ele estivesse, você se torna ainda mais exigente e quer mais e mais.
E sei eu da dor que é continuar a te dar cada pedaço de mim, me transformando naquilo que você quer que eu seja, para só depois descobrir que me transformastes numa grande montagem usando as peças que não soubesses encaixar naqueles que voce tanto ama.
E mesmo assim, voce olha pra mim e não ve o que quer, sente falta dos defeitos que você deixou de fora na minha criação. Sinto muito, minha querida Mary Shelley, se tua criação perfeita pecou pela falta de imperfeição, mas apesar de você não conseguir ver em mim , eu vejo. Sim, eu vejo cada pedaço quando estou naquela moldura, pendurada naquela parede no canto do teu quarto, do meu quarto. Sou inerente a mim, e ainda me vejo. Os meus verdadeiros retalhos, que aos poucos dividirão com uma fina linha eu, aqui embaixo, com meus pés fincados no chão, de você voando, flutuando lá em cima, se recusando a me olhar.
Abril 25, 2008
Posted by samaraa under poema, retalho | Tags: criação, criatura, espelho, fragmentos, mary, poema, retalhos |
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