Maio 2008


A chuva batia levemente na janela da estação. O som dos pingos ritmados me deixava ainda mais zonza do que estava. Eram seis da manha, ainda estava frio e escuro, as ruas umidas ainda se curvavam ao seu leve despertar, com casais em caminhadas tranqüilas e crianças bocejando no caminho de suas creches lentamente… passo a passo… como a chuva que caia. Na entrada da estação de metro uma senhora vendia flores.  Usava um chale vermelho sobre a cabeça, um vestido de pano e botões um pouco surrado, e com os olhos de sono, oferecia, todos os dias:

“Flores minha querida?”.

E eu tremia, minhas mãos suavam. Havia alguma coisa de muito intima e desafiadora na voz doce daquela senhora, como se sua doçura anciã contrastasse com minha amargura jovial. Então, me forçava a sorrir banhada de orgulho ferido, e usando de uma gentileza forçada, agradecia e descia as escadas o mais rápido possível, procurando desesperadamente por um pouco de ar. Era assim que, todas as manhas até então, esse encontro nas primeiras horas do dia me abalava.

Um dia teria que ser diferente.

Em minha vida vazia e sem sentido, trancada horas em um escritório de contabilidade onde imperceptivelmente eu realizava contas irrelevantes para clientes influentes, gastando horas do meu dia em filas de carros e de bilhete de estações, passando pelas pessoas como um fantasma, sem entender pra onde elas vão com tanta pressa, e voltando para aquele quarto imundo e alugado na beira da Av. paulista sem luz e agua somente após as 22h, não era assim que gostaria de terminar a vida. E nessa minha rotina de solidão e amargura, aquela doce senhora era o máximo de contato humano que eu conhecia, e evitava. Com o passar dos dias a inseparável dor que segue após um gesto inesperado de carinho deu lugar ansiedade. Muitos dias acordei, pensei em andar 10 minutos a mais, pegar a próxima estação e evitar a leveza daquela singela carícia. Repetia para mim mesma o quanto era irritante, todos os dias ter que recusar aquelas flores. “Nem ao menos gosto de flores”, pensava alto enquanto me aproximava da estação.

Nunca consegui.

Nunca consegui desviar meu caminho daquela senhora. Uma força maior me atraia e eu colocava a culpa no transito, ou na outra estação, longe demais, no quanto iria me atrasar, mesmo estando 40 minutos adiantada como era de costume. E aos poucos, de longe, eu a via. Com seu chale vermelho, no mesmo lugar, sua presença onipresente fazia minhas pernas tremerem. Nos poucos segundos antes de me aproximar da senhora, o medo tomava conta da minha alma. Tinha medo de notar hostilidade em seu questionamento discreto, de perceber uma nota de tristeza em sua voz, tinha medo de não ser notada, de passar despercebida. Mas isso nunca ocorreu. Todos os dias de manha com o mesmo tom ela me perguntava, e todos as manhas, eu sorria e recusava.

Ela entendeu. e tudo se iluminou em volta. entendeu ser possuidora de si mesmo, e sentiu o peso por isso adicionado. Havia passado por tantas experiências e sabia se conhecer mais que necessário para uma existência tranquila, era o fardo a ser carregado. Tinha consciência de suas escolhas, e como isso a tornava pesada, mas nao tremeu as pernas por saber do longo caminho a ser percorrido. Conseguia enxergar a inerente chuva fina de sua alma, sempre presente, e pode dar valor a cada raio iluminado de seu ser que atravessava suas gotas e se expandia… se expandia tanto, a cegava de uma mistura homogênea de medo e prazer, pois se orgulhava de nao ser rasa, porem temia suas fronteiras pois jamais as tinha alcançado. Não sabia o que encontraria se lá chegasse, mas estava preparada. Estava constantemente preparada para ser sempre alem, sempre pedaços de si mesma que ela nunca fora antes, de permutar e transmutar entre sua essência e seu oposto, e a se permitir sentir, apenas sentir.

Era aquilo que deveria ser, sua inerencia induzida e mitigada, sabia da busca pela intensidade, se anulava apenas para se ver voltar, voltava só para mudar tudo de lugar, e arrumava tudo apenas para bagunçar de novo, e se perder. Porque vivia de ciclos, em círculos, sem começo meio e fim, arriscava tudo. Seu espírito se contorcia sob sua pele, ansiando a espera, tentando intensamente nunca chegar a lugar nenhum e vivia sua crise em uma agonia serena. Era a primitiva dualidade de quem duvida das incertezas, era cada pequena contração de seus poros, era o arrepio da própria alma, era cada sensação questionada e a incerteza da sua própria existência. Era tudo e nada, em sua casca tão vazia quanto cheia. E ela sabia desses sentimentos induzidos fantasiados aos quais ela se voltava, pois era sua maneira de viver. Vivia varias vidas, todos os dias, varias vezes por dia. Antes de uma louca necessidade lúcida, antes de uma fantasia anterior, ela apenas achava sua vida pouco demais, e não cabia nela. Então buscava em paginas de livros, olhares a esquina, sonoridades em um radio alguma outra vida que coubesse na sua, sempre se mantendo perto do limite de onde ela saberia se puxar de volta. Era mais do que ela podia aguentar, era muito para uma só alma, então ela escolheu. Dividiu sua alma para caber seus personagens, e personificou cada um deles pela necessidade da imagem. Agora estava mais complexa que si mesma, e sabia de seu próprio labirinto.
Mas sonhava. sonhava com aquilo que jamais poderia ser, com aquilo que jamais teria por não querer, com a tranquilidade dos que são um unico. E entendia.
Ela respirou fundo. O vento bateu em seu rosto com uma textura diferente, transmutando. Até mesmo o vento tinha seu jeito de refletir. Ela acreditava ser isso tudo que ela tinha, a si mesma, apesar de nao aceitar isso ainda. Queria se construir, queria se preparar para se receber, conhecer cada parte antes de se jogar em si mesma, por segurança. E por segurança que se forçava a testar seus limites, queria se tornar alguém forte e experiente, ser receptiva e entender melhor das coisas a sua volta para que fosse capaz de se proteger. Ai sim… só então ela se entregaria. Só então poderia se entregar de corpo e alma, sem medo.

e há o silencio. um silencio quase insuportável que ressoa e vibra em cada palavra, como um eco de um instinto primordial, como o não ser. deixar de ser dentro das limitações, para se expandir, entrar em contato com o universo e pertence-lo. E sentir com pouco de pele e muito de uma substancia imaterial, inerente, sensivel a cada pequena vibração, a cada silencio. Algo que os olhos veem translúcido e cego, que o corpo sente anestesiado, e a mente se curva vuneravel a ilógica. Uma unica onda de energia sem delimitações, libertando cada repressão, cada parte antes nao vista, dando vida enquanto a suga.

Um doente terminal, que acorda com uma enorme fonte de vida, vontade de viver, de construir, de sonhar, de evoluir, mas sabe que esta fadado , preso a uma falha ironica do destino, a uma limitação corpórea , carnal, de saúde e entende ser a liberdade da alma a unica forma possível de liberdade em sua contrariada condição de moribundo.
Com isso ele liberta sua imaginação das correntes da realidade, se permite sonhar o impossível, sentir o cheiro e a temperatura de substancias imateriais, se deixa levar pelo doloroso prazer dos desejos impossíveis.
Pra ele o mundo parou, enquanto ele seguiu em frente. O mundo estacionou seu dia-a-dia em uma cama com ardor de álcool e formol. Se resumiu ao cubículo das impossibilidades, das certezas incertas, e a unica janela para o lado de fora são os olhos dos que o cercam. Olhos de pena, de culpa, de preocupação, mostrando esse lado que aflora apenas quando o limiar da morte toca, trazendo medo.
Assim ele sabe que em algum lugar lá fora a vida continua… mas não para ele. E se assombra em ver que já não importa, que sente pena desses transeuntes transbordando falsa doçura entre uma ou outra sessão de seus coqueteis. Eles não entendem o que é ser livre, a verdadeira liberdade, aquela que só existe na ausência dela.
Isso mesmo.
A verdadeira liberdade se esconde na sua própria ausência.

E ele ve claramente, através das cortinas brancas e das sombras da noite, e com isso se eleva, sente seu corpo flutuar acima da cama, como se possuísse em suas mãos todos os segredos do mundo, todas as respostas. Porem, conta apenas com a sua inútil vontade de viver, sua mórbida intelectualidade e seus assombros.
“sou forte”, pensa, “enfrentei na vida um numero maior de batalhas do que a maioria de meus colegas poderiam suportar”, mas sabe, isso não consola, não traz mas o orgulho que antes sentia. Achava ser capaz de entender tudo, que no fim tudo faria sentido. Mas agora, deitado naquela cama, a vida faz tão pouco sentido quanto antes, quando criança, viu pela primeira vez o bater das asas de uma borboleta saindo de seu casulo.
E se revoltou! como se revoltou!!
Sabia que a maioria das borboletas viviam 20 dias, tinha visto em uma revista, e não conseguia entender o que se pode fazer com tao pouco tempo. “que existência inútil” pensou na epoca.
Ele também não sabia o que fazer nos seus poucos dias de vida restante, irônico não? Tentar resumir toda uma vida, de descobertas, amores, evoluções, erros, decepções, de uma forma que tudo se encaixasse e fizesse sentido quando te resta poucas semanas de vida, é uma tarefa absurdamente infeliz, se no fim, tudo se vai, nada fica a não ser esses olhos marejados e enojados, que continuarão sua estrada na vida, porem sem senti-la
Então optou por se libertar, ser livre, como nunca teve tempo de ser! Sonhou intensamente, tão intensamente que ao fim já nem era capaz de distinguir a realidade pacata do hospital da fantástica dimensão criada em sua mente. Acharam que a doença tinha tomado conta também da sanidade daquele pobre homem. Cegos olhos, cegas janelas que não eram capaz de ver a verdadeira essência da liberdade na loucura. E cada vez mais distante daquelas quatro paredes brancas e cada vez mais perto da verdadeira essência humana, pouco antes da sua morte , aquele homem pode entender, que também a vida pela qual ele tanto buscou passa despercebidas pelos sobreviventes. Que se acostumam com sua presença e tão dentro de seu intimo, de seu núcleo, não conseguem enxerga-la. Ficam cegos, por olharem constantemente direto para ela, sua luz o cega. Ele podia agora ver de longe, e pode entender tudo, e nesses últimos instantes, foi feliz.
A verdadeira vida tambem se esconde na sua ausência.