Um doente terminal, que acorda com uma enorme fonte de vida, vontade de viver, de construir, de sonhar, de evoluir, mas sabe que esta fadado , preso a uma falha ironica do destino, a uma limitação corpórea , carnal, de saúde e entende ser a liberdade da alma a unica forma possível de liberdade em sua contrariada condição de moribundo.
Com isso ele liberta sua imaginação das correntes da realidade, se permite sonhar o impossível, sentir o cheiro e a temperatura de substancias imateriais, se deixa levar pelo doloroso prazer dos desejos impossíveis.
Pra ele o mundo parou, enquanto ele seguiu em frente. O mundo estacionou seu dia-a-dia em uma cama com ardor de álcool e formol. Se resumiu ao cubículo das impossibilidades, das certezas incertas, e a unica janela para o lado de fora são os olhos dos que o cercam. Olhos de pena, de culpa, de preocupação, mostrando esse lado que aflora apenas quando o limiar da morte toca, trazendo medo.
Assim ele sabe que em algum lugar lá fora a vida continua… mas não para ele. E se assombra em ver que já não importa, que sente pena desses transeuntes transbordando falsa doçura entre uma ou outra sessão de seus coqueteis. Eles não entendem o que é ser livre, a verdadeira liberdade, aquela que só existe na ausência dela.
Isso mesmo.
A verdadeira liberdade se esconde na sua própria ausência.
Isso mesmo.
A verdadeira liberdade se esconde na sua própria ausência.
E ele ve claramente, através das cortinas brancas e das sombras da noite, e com isso se eleva, sente seu corpo flutuar acima da cama, como se possuísse em suas mãos todos os segredos do mundo, todas as respostas. Porem, conta apenas com a sua inútil vontade de viver, sua mórbida intelectualidade e seus assombros.
“sou forte”, pensa, “enfrentei na vida um numero maior de batalhas do que a maioria de meus colegas poderiam suportar”, mas sabe, isso não consola, não traz mas o orgulho que antes sentia. Achava ser capaz de entender tudo, que no fim tudo faria sentido. Mas agora, deitado naquela cama, a vida faz tão pouco sentido quanto antes, quando criança, viu pela primeira vez o bater das asas de uma borboleta saindo de seu casulo.
E se revoltou! como se revoltou!!
Sabia que a maioria das borboletas viviam 20 dias, tinha visto em uma revista, e não conseguia entender o que se pode fazer com tao pouco tempo. “que existência inútil” pensou na epoca.
Ele também não sabia o que fazer nos seus poucos dias de vida restante, irônico não? Tentar resumir toda uma vida, de descobertas, amores, evoluções, erros, decepções, de uma forma que tudo se encaixasse e fizesse sentido quando te resta poucas semanas de vida, é uma tarefa absurdamente infeliz, se no fim, tudo se vai, nada fica a não ser esses olhos marejados e enojados, que continuarão sua estrada na vida, porem sem senti-la
Então optou por se libertar, ser livre, como nunca teve tempo de ser! Sonhou intensamente, tão intensamente que ao fim já nem era capaz de distinguir a realidade pacata do hospital da fantástica dimensão criada em sua mente. Acharam que a doença tinha tomado conta também da sanidade daquele pobre homem. Cegos olhos, cegas janelas que não eram capaz de ver a verdadeira essência da liberdade na loucura. E cada vez mais distante daquelas quatro paredes brancas e cada vez mais perto da verdadeira essência humana, pouco antes da sua morte , aquele homem pode entender, que também a vida pela qual ele tanto buscou passa despercebidas pelos sobreviventes. Que se acostumam com sua presença e tão dentro de seu intimo, de seu núcleo, não conseguem enxerga-la. Ficam cegos, por olharem constantemente direto para ela, sua luz o cega. Ele podia agora ver de longe, e pode entender tudo, e nesses últimos instantes, foi feliz.
A verdadeira vida tambem se esconde na sua ausência.
Maio 6, 2008 at 1:04 pm
Realmente um ótimo post, é esse tipo de libertade que tento atingir.
Um Abraço
Junho 14, 2008 at 4:27 pm
isso me faz lembrar umas coisas…
fazer uma analogia entre a borboleta e o q meu professor de psicanalise vive falando: morreriamos se vivessemos em gozo eterno. A borboleta passa a vida la…se arrasta, se escasula e passa tão pouco tempo no gozo do voo e se fosse o contrario? a gente ia viver voando para conseguir o gozo de se arrastar?