Ela entendeu. e tudo se iluminou em volta. entendeu ser possuidora de si mesmo, e sentiu o peso por isso adicionado. Havia passado por tantas experiências e sabia se conhecer mais que necessário para uma existência tranquila, era o fardo a ser carregado. Tinha consciência de suas escolhas, e como isso a tornava pesada, mas nao tremeu as pernas por saber do longo caminho a ser percorrido. Conseguia enxergar a inerente chuva fina de sua alma, sempre presente, e pode dar valor a cada raio iluminado de seu ser que atravessava suas gotas e se expandia… se expandia tanto, a cegava de uma mistura homogênea de medo e prazer, pois se orgulhava de nao ser rasa, porem temia suas fronteiras pois jamais as tinha alcançado. Não sabia o que encontraria se lá chegasse, mas estava preparada. Estava constantemente preparada para ser sempre alem, sempre pedaços de si mesma que ela nunca fora antes, de permutar e transmutar entre sua essência e seu oposto, e a se permitir sentir, apenas sentir.
Era aquilo que deveria ser, sua inerencia induzida e mitigada, sabia da busca pela intensidade, se anulava apenas para se ver voltar, voltava só para mudar tudo de lugar, e arrumava tudo apenas para bagunçar de novo, e se perder. Porque vivia de ciclos, em círculos, sem começo meio e fim, arriscava tudo. Seu espírito se contorcia sob sua pele, ansiando a espera, tentando intensamente nunca chegar a lugar nenhum e vivia sua crise em uma agonia serena. Era a primitiva dualidade de quem duvida das incertezas, era cada pequena contração de seus poros, era o arrepio da própria alma, era cada sensação questionada e a incerteza da sua própria existência. Era tudo e nada, em sua casca tão vazia quanto cheia. E ela sabia desses sentimentos induzidos fantasiados aos quais ela se voltava, pois era sua maneira de viver. Vivia varias vidas, todos os dias, varias vezes por dia. Antes de uma louca necessidade lúcida, antes de uma fantasia anterior, ela apenas achava sua vida pouco demais, e não cabia nela. Então buscava em paginas de livros, olhares a esquina, sonoridades em um radio alguma outra vida que coubesse na sua, sempre se mantendo perto do limite de onde ela saberia se puxar de volta. Era mais do que ela podia aguentar, era muito para uma só alma, então ela escolheu. Dividiu sua alma para caber seus personagens, e personificou cada um deles pela necessidade da imagem. Agora estava mais complexa que si mesma, e sabia de seu próprio labirinto.
Mas sonhava. sonhava com aquilo que jamais poderia ser, com aquilo que jamais teria por não querer, com a tranquilidade dos que são um unico. E entendia.
Ela respirou fundo. O vento bateu em seu rosto com uma textura diferente, transmutando. Até mesmo o vento tinha seu jeito de refletir. Ela acreditava ser isso tudo que ela tinha, a si mesma, apesar de nao aceitar isso ainda. Queria se construir, queria se preparar para se receber, conhecer cada parte antes de se jogar em si mesma, por segurança. E por segurança que se forçava a testar seus limites, queria se tornar alguém forte e experiente, ser receptiva e entender melhor das coisas a sua volta para que fosse capaz de se proteger. Ai sim… só então ela se entregaria. Só então poderia se entregar de corpo e alma, sem medo.