A chuva batia levemente na janela da estação. O som dos pingos ritmados me deixava ainda mais zonza do que estava. Eram seis da manha, ainda estava frio e escuro, as ruas umidas ainda se curvavam ao seu leve despertar, com casais em caminhadas tranqüilas e crianças bocejando no caminho de suas creches lentamente… passo a passo… como a chuva que caia. Na entrada da estação de metro uma senhora vendia flores. Usava um chale vermelho sobre a cabeça, um vestido de pano e botões um pouco surrado, e com os olhos de sono, oferecia, todos os dias:
“Flores minha querida?”.
E eu tremia, minhas mãos suavam. Havia alguma coisa de muito intima e desafiadora na voz doce daquela senhora, como se sua doçura anciã contrastasse com minha amargura jovial. Então, me forçava a sorrir banhada de orgulho ferido, e usando de uma gentileza forçada, agradecia e descia as escadas o mais rápido possível, procurando desesperadamente por um pouco de ar. Era assim que, todas as manhas até então, esse encontro nas primeiras horas do dia me abalava.
Um dia teria que ser diferente.
Em minha vida vazia e sem sentido, trancada horas em um escritório de contabilidade onde imperceptivelmente eu realizava contas irrelevantes para clientes influentes, gastando horas do meu dia em filas de carros e de bilhete de estações, passando pelas pessoas como um fantasma, sem entender pra onde elas vão com tanta pressa, e voltando para aquele quarto imundo e alugado na beira da Av. paulista sem luz e agua somente após as 22h, não era assim que gostaria de terminar a vida. E nessa minha rotina de solidão e amargura, aquela doce senhora era o máximo de contato humano que eu conhecia, e evitava. Com o passar dos dias a inseparável dor que segue após um gesto inesperado de carinho deu lugar ansiedade. Muitos dias acordei, pensei em andar 10 minutos a mais, pegar a próxima estação e evitar a leveza daquela singela carícia. Repetia para mim mesma o quanto era irritante, todos os dias ter que recusar aquelas flores. “Nem ao menos gosto de flores”, pensava alto enquanto me aproximava da estação.
Nunca consegui.
Nunca consegui desviar meu caminho daquela senhora. Uma força maior me atraia e eu colocava a culpa no transito, ou na outra estação, longe demais, no quanto iria me atrasar, mesmo estando 40 minutos adiantada como era de costume. E aos poucos, de longe, eu a via. Com seu chale vermelho, no mesmo lugar, sua presença onipresente fazia minhas pernas tremerem. Nos poucos segundos antes de me aproximar da senhora, o medo tomava conta da minha alma. Tinha medo de notar hostilidade em seu questionamento discreto, de perceber uma nota de tristeza em sua voz, tinha medo de não ser notada, de passar despercebida. Mas isso nunca ocorreu. Todos os dias de manha com o mesmo tom ela me perguntava, e todos as manhas, eu sorria e recusava.
Junho 14, 2008 at 4:21 pm
sem palavras…
foda.